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Capa | Cadê meu celular? Como o excesso do uso da tecnologia pode ter efeitos negativos para a sua saúde
Friday, 16 March 2018 00:00


“Cadê meu celular?” Essa se tornou uma pergunta bastante popular e ouvida com frequência em qualquer ambiente, por qualquer pessoa, de qualquer idade e em qualquer circunstância. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 75% da população brasileira usa celular. São mais de 130 milhões de usuários acima de 10 anos. Isso sem contar os que estão abaixo dessa faixa etária e já possuem, quem sabe, um smartphone. Por tamanha abrangência e acessibilidade, o uso sem limites do celular tem se tornado, em muitos casos, indiscreto e indelicado. Tudo isso porque a “geração celular” deixou-se possuir pela tecnologia, informação e uma interação sem fronteiras, contudo, perigosa.

Incomoda muito conversar com alguém que não sabe se conversa com você ou olha o telefone. Sentar numa mesa e perceber que tem alguém a mais por ali, mas você não vê. Sem contar aquele barulhinho insuportável das mensagens que não param de chegar. Ou ver uma roda de amigos onde ninguém fala, todos digitam, ninguém olha para a frente, somente pra baixo.




O termo NOMOFOBIA surgiu na Inglaterra e vem da junção das palavras inglesas NO (não, sem), MOBILE PHONE (celular) e FOBIA (medo excessivo), que, resumindo, significa medo de ficar sem o celular.

Parece engraçado, mas todos nós de alguma forma já tivemos (ou temos) esse sentimento. A nomofobia já se tornou uma das patologias mais comuns do mundo pós-moderno. Você pode até achar que não, mas a ansiedade, a angústia e a irritação são os sintomas mais frequentes quando algumas ocorrências ocorrem no nosso dia a dia, podendo revelar que somos todos NOMOFÓBICOS, ocorrências tais como: “Operadora sem sinal. Celular fora de área!”; “Internet fraca, lenta. Que saco!”; “Ixi! Acabou a bateria!”; “Moça, aqui não tem WI-FI?”; “Gente, cadê meu celular?”; entre outros.

E aí? Conseguiu se ver em alguma dessas? Pois bem, se sua resposta foi sim, você pode estar sofrendo de nomofobia. Mas não se desespere! Existe esperança para se livrar ou, pelo menos, controlar esse medo que domina a mente e o corpo de muita gente por aí.

Pesquisas indicam que 35% dos brasileiros consultam seus celulares a cada 10 minutos, ou menos. Para cada cinco pessoas no mundo, uma é nomofóbica. E aquilo que, em princípio, pode parecer engraçado, se não for controlado, pode se tornar um grande problema de ordem social e até mesmo afetar nossa fé e espiritualidade.

Essa falta de controle pode ser a triste realidade de um compulsivo pelo uso e pelo consumo das mídias e suas tecnologias. E o compulsivo sofre o tempo todo. Sofre muito enquanto não satisfaz a sua compulsão e sofre muito depois de satisfazê-la. Antes, sente-se infeliz por não ter satisfeito o seu desejo. Depois, sente-se infeliz por ter satisfeito o seu desejo e experimentado mais um fracasso, mas uma recaída.

A compulsão é um transtorno que pode se manifestar de diversas formas na vida de um ser humano e está mais presente e mais manifesto do que pensamos. Para Uriel Heckert, doutor em psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP), “compulsão é um ato executado de forma repetitiva, mediante pressão psicológica interna, fugindo ao controle voluntário da própria pessoa.” O compulsivo age instintivamente. Ele age de maneira mecânica e, muitas vezes, não percebe a intensidade de suas ações e suas consequências.

Um exemplo. O adolescente Fernando Rodrigues, de 15 anos, passou por uma experiência inédita: ele conversou com os pais durante mais de 20 minutos animadamente. Fernando estava jogando videogame quando a luz de sua casa apagou. O garoto logo foi para o celular, mas a bateria do aparelho também se foi. Sem ter como carregar o smartphone e com o videogame desligado, não restou outra alternativa a não ser falar com os pais. A mãe, Andrea, disse que sequer sabia como era a voz do filho: “Eu achei muito estranha aquela voz grossa me chamando. Achei até que pudesse ser um ladrão que estava se aproveitando da falta de luz”. Ao contrário de outras famílias brasileiras, eles agora torcem por novos apagões. “Já compramos até velas. Quem sabe ele não se anima a ler um livro?”, conta Andrea.

Casos como estes – sem tanto exagero, é claro – constantemente acontecem em nosso meio. Foram esta e outras razões que me levaram a escrever o que escrevo. Situações das mais diversas demonstram que não estamos usando o bem que recebemos da forma como deveríamos usar. Internet, tecnologia e modernidade devem servir-nos no exercício do bem e do serviço. Quando exageramos no controle do uso correto e necessário, passam a nos fazer mal: a nós e aos outros.

Antes de apresentar caminhos que penso serem pertinentes para nos libertamos do uso e da relação descontrolada com as mídias e smartphones e vivermos uma vida mais sadia e com mais relações humanas, falo um pouco mais de alguns reflexos desta relação doentia.


Perda de foco: As mídias sociais e os aparelhos eletrônicos são verdadeiros ladrões de tempo e privacidade. Facilmente deixamos de fazer o que estamos fazendo e falar com quem estamos falando quando ouvimos uma chamada ou um sinal de alerta. Basta ouvir o sinal do celular para pararmos de fazer tudo e mudarmos nossa “rota”. Quando não temos disciplina, os aparelhos nos dominam e, depois de sermos dominados, vem a frustração de não termos feito aquilo que deveríamos fazer.


O problema da ausência: Facilmente podemos estar em lugares e, ao mesmo tempo, não estarmos presentes de fato neles. Não é assombração. Funciona mais ou menos assim: você está em um ambiente, mas a conexão com o celular o leva a frequentar outro lugar que não é aquele lugar. Você conversa com um, mas a conversa que mais o prende a atenção é com outro. Logo, o corpo está presente, mas a mente, totalmente ausente. Parece que você esta ali, mas não está. Sua conexão está online no aparelho, mas totalmente off-line no ambiente.


Um Corcunda de Notre Dame: Você assistiu a esse filme? Lembra-se do protagonista? Lembra-se do Quasimodo? Pois bem, usar o celular e outros aparelhos pode nos levar a consequências físicas como a situação daquele rapazinho. Calma! Nem tanto, né? Contudo, o Ministério da Saúde já destaca patologias oriundas do uso indevido da tecnologia. A nossa postura, por exemplo, está cada vez mais curvada, literalmente, diante das redes sociais.


Outras consequências que podemos sofrer: lesão por esforço repetitivo (LER); mialgia: dor muscular causada por tensões nos músculos e acomete principalmente a coluna cervical e a cintura escapular, causando dor, fadiga e fraqueza muscular; estresse decorrente do uso prolongado, do barulho constante de alertas, do volume alto; degeneração das retinas (olhos); vários tipo de tendinite; entre outros.


Como se pode verificar, o negócio é sério. É preciso se prevenir para não ter que, em breve, remediar!

Quando o telefone toca durante o almoço de nossa família, não atendemos, seja quem for. Essa regra, imposta por mim, estabelece limites e impõe uma filosofia sadia em um momento sagrado do nosso dia a dia. Por mais urgente que seja alguém poderá esperar. Nunca tive um problema sequer, até hoje, tendo essa conduta.

Limites são sadios, são defesas ao nosso favor. Uma vida sem limites se torna vulnerável, sem muros e em constante perigo. Precisamos aprender a colocar limites na conduta e na rotina da nossa vida. Isso faz parte. Isso compõe e reflete nossa identidade e nosso caráter. Esse e outros exemplos de medidas a adotar podem e devem compor a conduta de nossa vida, especialmente quando nos referimos ao uso do celular e de outras tecnologias. Se não estabelecermos alguns limites, seremos tomados e dominados por coisas que não são tão importantes na vida e que são ladrões do nosso precioso tempo. Exemplo disso, nas palavras de Cristo, que nos deu um grande exemplo do estabelecimento de limites: “Sejam vossas palavras sim, sim. Não, não. O que passar disso, provém do maligno”.

Quer algo mais delimitador do que isso? Falar sim, quando devemos dizer sim e não, quando não é um grande indicador de economia de tempo, energia e dinheiro. Pare, pense e estabeleça limites!

Comece com coisas simples e depois avance. Atitudes como estabelecer tempo para usar a internet, selecionar grupos de bate-papo dos quais você realmente precisa participar. Mande uma mensagem justificando a sua saída daquele grupo. Todos vão entender.

Fazendo assim, você terá mais energia, mais tempo e será mais feliz!



Sobre o autor Marlon Brito
Marlon Brito é pastor, psicólogo, master-coaching. Casado com Yara Brito, tem dois filhos: Camille e Phillipe. Atualmente pastoreia na Crosspoint Christian Church em Conyers/GA. No Brasil, fundou o Projeto Crescer, uma ONG que realiza atividades por meio do futebol e outros esportes, que atende hoje mais de 1.200 crianças.

Last Updated on Friday, 16 March 2018 17:55
 

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