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Written by Administrator   
Thursday, 18 April 2019 00:00


Minha família e eu fizemos um cruzeiro marítimo e um dos pontos altos era o jantar formal servido no navio todas as noites. Ali podíamos experimentar comidas exóticas de várias partes do mundo e conversar com garçons de vários continentes diferentes, o que foi uma das coisas mais legais para os meus filhos.

O cardápio dos adultos trazia pratos simples, como carnes grelhadas ou diferentes pastas; e também extravagantes, como carne de jacaré ou de coelho. Diariamente, o garçom trazia para meus meninos o “kids menu” ou cardápio infantil, com cachorro quente, batata frita e nuggets.

Todas as noites, o garçom que vinha nos atender ficava um pouco surpreso quando falávamos para ele que as crianças iriam ordenar do cardápio normal, dos adultos. Notei que muitas crianças do cruzeiro nunca participavam desse jantar formal. Elas ficavam no clube para crianças que o navio oferecia. Ali você poderia deixar seus filhos com as “tias”, enquanto curtia um momento para relaxar e descansar. Acabávamos não usando esse clube porque os avós das crianças estavam juntos conosco e queriam curtir cada minuto com as crianças, mas achei boa a ideia de ter algumas horas livres com meu marido. O que me surpreendeu um pouco foi que o clube das crianças ficava aberto o dia todo, tanto enquanto o navio estava em alto mar, como quando estava ancorado nas ilhas. Muitas crianças ficavam ali em todos os dias do cruzeiro, e nem chegavam a descer do navio para ver as belas praias ou conhecer países e culturas diferentes.

Algum tempo atrás, li um livro com o título “Pais ocupados, filhos distantes”, de autoria de Gordon Neufeld e Gabor Mate, o qual me impactou muito e mudou totalmente a forma como vejo a criação de filhos e educação das crianças. O livro desses dois doutores em Psicologia e Psiquiatria destaca que o maior erro que temos cometido com nossas crianças é segregá-las, separá-las dos adultos e da vida em comunidade. De acordo com eles, crianças precisam e devem conviver com adultos para, primeiramente, se sentirem seguras; também para aprenderem a se relacionar e lidar com as emoções; e para descobrirem o mundo ao seu redor. Segundo os autores, criou-se um mito de que criança precisa estar com criança e, como resultado, vemos crianças passando cada vez mais tempo segregadas com outras da mesma faixa etária. Como consequência, a experiência tão importante de troca entre diferentes faixas etárias deixou de existir. Segundo os psicólogos, estamos criando adultos inseguros, dependentes de aprovação contínua e imaturos emocionalmente, porque estamos ocupados demais e os segregamos.

Claro que toda criança ama brincar com criança, correr na rua e se divertir. Mas a interação com adultos é tão importante quanto ou até mais. Que adolescentes e jovens esperamos ter, se durante a infância estamos confinando nossos filhos com outras crianças dentro de uma sala e limitando as experiências deles a cachorro quente, pizza de queijo ou pepperoni e videogames? Por que a maioria das crianças não gosta da escola, se elas amam aprender, conhecer o mundo lá fora?

Por que não as expor a experiências interessantes, como provar diferentes tipos de comidas, ver lugares diferentes e se maravilhar com o mundo lá fora? Por que não permitir que elas conversem com o avô e escutem sobre como as coisas eram antigamente ou que elas perguntem ao garçom que está servindo a sua mesa de onde ele veio, que língua ele fala em seu país e se ele não sente falta da sua casa? Não tem nada de errado em deixar as crianças algumas horas no clube do navio ou na escola ou na creche, mas não podemos limitar a vida de uma criança à convivência com crianças da mesma faixa etária dentro da escola ou do clubinho do navio ou da salinha da igreja. A infância é tempo de preparação para a vida adulta. Se você e eu não queremos viver em um mundo em que nossos jovens só se interessam por videogame e fast food, em um mundo em que eles não têm o mínimo interesse em ouvir as experiências de outros que pensam e vivem diferente deles mesmos, precisamos começar uma mudança desde agora.

Segundo o historiador Howard Chudacoff, essa segregação é algo recente, pois até o século 19, as grandes famílias trabalhavam, aprendiam e passavam muito tempo juntas.

Uma pesquisa realizada aqui nos Estados Unidos mostrou que o custo dessa segregação é bem alto, pois as crianças aprendem muito com a interação com as diferentes gerações. Um estudo conduzido pelos antropologistas Beatrice e John Whiting, observando a questão da segregação por idade em seis culturas diferentes, mostrou que crianças mais velhas que passam tempo com crianças pequenas tendem a ser acolhedoras, enquanto que as que convivem com grupos diferentes de idade aprendem lições importantes de como ser parte de um grupo.

A pesquisa também revelou que crianças que passavam a maior parte do dia apenas com crianças da mesma idade, eram extremamente competitivas, em oposição àquelas que interagiram com diferentes grupos.

A psicóloga Barbara Rogoff alerta: “Nós temos muito o que aprender com pessoas que estão em um estágio diferente da vida do que o nosso”. Ela, que é psicóloga da Universidade da Califórnia e tem estudado o assunto por anos, diz estar especialmente preocupada com a vida das crianças na América. “Pessoas pensam que crianças precisam ter uma vida completamente diferente e separada de adultos, mas isso não é verdade e não é a melhor maneira para as crianças crescerem e amadurecerem. Nós temos excluído as crianças da vida em comunidade ao ponto de elas sentirem que não têm nada para oferecer”, ressalta.

As estatísticas e referências citadas neste texto foram retiradas do artigo intitulado “What ‘age segregation’ does to America”, publicado pelo Boston Globe.



por Tathiana Schulze
www.mamaereal.com

 

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