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Capa | GRATIDÃO: CAROLINA BIMONTE FALA SOBRE SEU TRABALHO COMO PASTRY CHEF NA MANSÃO DO GOVERNADOR DA GEÓRGIA
Tuesday, 17 November 2020 00:00


Novembro é o mês do Thanksgiving aqui nos Estados Unidos. Para todos nós, essa é uma data em que avaliamos a nossa vida e agradecemos por tudo que recebemos de bênçãos durante o ano. Para a brasileira Carolina Bimonte Hart não poderia ser diferente.

Carol, como gosta de ser chamada, é natural de São Paulo. Ela é casada com o americano James Hart e tem três filhos – Olivia de 2.5 anos, Stella de 1.5 anos e Jack, nascido em meados de outubro deste ano. A brasileira, que mora em Lawrenceville, Geórgia, é triligue, formada em Administração pela UMESP, MBA em gestão de projetos pela FAAP e um associates degree em Culinary Arts pelo Le Cordon Bleu. Após seus estudos, Carol trabalhou em várias instituições e lugares renomados em Atlanta, e atualmente como Pastry Chef na mansão do governador do estado da Geórgia.

Conheça mais Carolina na nossa entrevista a seguir.


CIA BRASIL: Carol, conte-nos sobre sua vinda para a América. Porque decidiu vir morar na Georgia?

CAROLINA: Fui intercambista em Wisconsin, onde frequentei a high school em 2002. No final dos estudos eu não queria voltar ao Brasil, mas foi justo na época do September 11th e, infelizmente, não consegui ficar. Retornei ao Brasil e cursei Administração de Empresas com ênfase em Comércio Exterior. Formei-me e logo trabalhei com exportação de doces. Dois anos depois recebi uma proposta da Johnson & Johnson e lá trabalhei na área financeira, por seis anos. Cursei MBA em Gestão de Projetos e recebi uma proposta da Danone para trabalhar como controladora financeira e fui. No entanto, me vi muito infeliz no trabalho, não tinha prazer em fazer aquilo todo dia e trabalhava muito, virava noites fazendo fechamentos mensais. Até que um dia comecei a fazer cupcakes, a partir de um livro que ganhei de aniversário, para tirar o stress e iniciei meu amor por essa arte. Mas trabalhar na cozinha até então não era uma opção para mim, eu pensava que não era carreira. Depois, recebi uma proposta para trabalhar numa empresa em Santa Monica, na Califórnia, e estava quase tudo acertado para eu me mudar para lá, quando tive um “surto” e desisti de tudo, resolvi que queria cursar Culinária. Vendi tudo que eu tinha no Brasil e me matriculei no Le Cordon Blue em Tucker, GA. Escolhi a Geórgia porque na época eu tinha uma tia que morava aqui, e isso facilitaria a minha adaptação.


CIA BRASIL: Fale um pouco sobre a sua vida aqui. Como foi no início, as pessoas com quem conviveu, os trabalhos que realizou e se você sentiu falta do Brasil.

CAROLINA: Cheguei em março de 2014 com duas malas e minha cachorrinha Vanilla. Fui morar com minha tia e seu marido em Suwanee. Em abril começaram minhas aulas. Não tive muitos problemas em me adaptar, não senti e não sinto falta do Brasil. Claro que sinto falta das amizades e da minha família, mas a tranquilidade que sinto em viver aqui supera essa dorzinha. Na época da faculdade eu não podia trabalhar, salvo no campus. Então eu fazia tudo e qualquer trabalho voluntário disponível. Participei de todos os festivais gastronômicos como Taste of Atlanta, trabalhei voluntariamente para grandes restaurantes e chefs de renome, daí veio uma oportunidade para trabalhar também voluntariamente na mansão do governador do estado da Geórgia, que estava na época sob o comando do Governador Nathan Deal. Eu aceitei, e todas as vezes que eles precisavam, eu ia.

Posteriormente, a primeira-dama, Mrs. Deal, ofereceu-me um trabalho como Chef Confeiteira da mansão. Hoje sou contratada do Estado e sempre que eles precisam de alguma coisa relacionada a confeitaria/panificação, me chamam. Eu sempre aliei esse trabalho aos meus outros.

Para me formar, eu precisava fazer estágio supervisionado, e para isso consegui trabalhar com a excelente Pastry Chef Executiva Alex Hwang do Cherokee Town&Country Club. Após três meses de estágio, ela me contratou e fiquei trabalhando lá por pouco mais de dois anos. De lá recebi uma proposta para ser Pastry Chef do City Club of Buckhead trabalhando lado a lado com o Chef Executivo Daniel Fein. Após dois anos o clube fechou as portas e eu fui trabalhar para uma outra empresa como chef confeiteira. Por último trabalhei part-time como “cake decorator” na The Baking Grounds e part-time pastry chef na Catering Concepts.



CIA BRASIL: Fale-nos sobre a sua família, os seus filhos e a chegada do seu novo bebê. Como você concilia tudo isso?

CAROLINA: Minha família é o mais lindo de todos os meus trabalhos. Sou muito realizada por ser mãe. Era um sonho que eu sempre tive, mas que não sabia que quando se tornasse realidade seria tão prazeroso e realizador. Família pra mim é tudo. Aprendi com os meus pais a sempre dar valor à família, a tê-la como alicerce.

Meus filhos são tranquilos, meu marido e eu somos muito gratos a Deus por eles. Às vezes é cansativo conciliar trabalho e três crianças pequenas, mas quando a gente senta e fica observando o que estamos construindo, é lindo. Com o novo bebê, estou tentando me adaptar à nova rotina de trabalhar em casa. Mas a gente se desdobra, afinal, não é todo mundo que pode ser feliz em fazer o que gosta. E eu amo!



CIA BRASIL: Por que você decidiu pela carreira culinária?

CAROLINA: Eu sempre tive uma veia “artística”. Quando eu era criança e me perguntassem o que eu queria ser quando crescer, eu dizia que queria ser a Estátua da Liberdade, e outras opções, quem eram sempre de “aparecer”, como ser atriz, o que meu pai baniu logo de cara, dizendo que isso não era carreira. Então eu quis estudar Turismo... e ele também não achou uma boa ideia. Acabei, então, cursando Administração.

Mas eu sempre cozinhei. Lembro-me de fazer bolo quando eu ainda era bem pequenina e confeitar com raspas de chocolate branco e M&M’s. Meus pais sempre cozinharam muito bem e sempre nos levavam para restaurantes de diversos tipos e assim meu paladar foi aprendendo a gostar de coisas boas. Quando fui morar sozinha, virei “mestre cuca”, fazia de tudo um pouco. Comecei a fazer mais baking como hobby, até receber a primeira encomenda de cakepops. Daí fui aliando bolos, cupcakes e cakepops como hobby pago ao meu “verdadeiro” trabalho, até que um dia presa no trânsito horrível de São Paulo, tive uma epifania e comecei a chorar copiosamente pensando na vida e pensando o quão prazeroso era fazer meus bolinhos, o quanto me deixava feliz e o quanto deixava as pessoas que os comiam felizes.

Em seguida fui pra casa da minha mãe e falei para ela que ia largar tudo e iria cursar Culinária. Ela foi meu maior apoio desde o início. E assim vim eu com planos de estudar aqui nos Estados Unidos e voltar a São Paulo para abrir uma confeitaria. Mas Deus tinha outros planos para mim, colocou um amor na minha vida e me deu uma linda família e uma carreira maravilhosa.


CIA BRASIL: Como foi estudar na Le Cordon Bleu? Foi difícil ser aceita?

CAROLINA: Foi uma tremenda experiência. O processo não foi difícil. Eles analisaram meu currículo e minhas cartas de recomendação e me aceitaram. Dei-me muito bem com os chefs instrutores. Muitos me convidaram para trabalhar em eventos fora da escola. Fiz alguns meals on wheels (importante causa beneficente em Atlanta), cozinhei para nomes como D’anne Cagle Heckert (chef editora das revistas The Atlantan e Jezebel Magazine) entre outras experiências muito bacanas. Tenho um relacionamento muito bom até hoje com os chefs instrutores, inclusive com Chef Shular, um dos poucos master chefs no país e o único master chef negro. Ganhei prêmios de melhor aluna, me formei com 4.0 GPA e com uma bagagem enorme. E tenho trabalhado como chef confeiteira para o Governo do Estado da Geórgia nos últimos cinco anos.



CIA BRASIL: Você tem uma especialização, sendo só Pastry Chef, ou se “aventura” em outras áreas?

CAROLINA: Eu me especializei em confeitaria e panificação, mas no primeiro semestre a gente cursa culinária geral, assim como práticas de cuidados sanitários, RH, custos, história da culinária etc. Eu faço de tudo um pouco, mas pendo para o lado dos bolos. Quanto mais bolos faço, mais feliz é minha semana. Ter trabalhado na The Baking Grounds me trouxe grande experiência, e gostaria muito de lecionar o curso de culinária em high school e technical colleges.


CIA BRASIL: Quando você terminou sua faculdade, você já conseguiu emprego em sua área?

CAROLINA: Sim, depois do estágio durante a faculdade, logo recebi a proposta de trabalho full time, sob a supervisão da Chef Alex Hwang, que me ensinou muito do que sei hoje. A faculdade só dá uma visão geral; o real mesmo se aprende com as mãos na massa, no trabalho.


CIA BRASIL: Como é trabalhar na mansão do Governador da Geórgia?

CAROLINA: Eu amo trabalhar na mansão! Trabalho com lá desde o primeiro ano da faculdade. Comecei fazendo trabalho voluntário para adquirir experiencia, e quando me formei recebi a proposta para ser part-time e fazer sobremesas para os eventos. Todo final de ano eu faço em torno de 20 mil cookies para o tour de Natal. No primeiro ano éramos em quinze pessoas, no segundo ano éramos quatro, no terceiro ano só eu e uma outra chef e depois disso, só eu.

Na mansão eu respondo diretamente ao Chef Simon, que é o chef executivo da casa, e trabalha lá em tempo integral. Desde que estou na mansão foram três administrações, dois do governo Nathan Deal e agora com o governador Brian Kemp, e sempre foram todos muito bacanas.


CIA BRASIL: No início deste ano o mundo inteiro sofreu com a pandemia do COVID-19. Como ficou o seu trabalho na mansão?

CAROLINA: Eu continuo trabalhando lá, mas com horas reduzidas, pois os eventos todos foram cancelados. E estamos analisando se vai ter ou não o famoso tour de final de ano.

Logo no início da pandemia eu também estava como part-time pastry chef na Catering Concepts. Com o lockdown, perdi todas as minhas horas em todos os lugares. Vi-me com duas filhas pequenas e grávida. Decidi então que era hora de encostar a barriga no meu fogão, ao invés do fogão alheio, e investir um pouco no meu próprio negócio. Eu já fazia algumas pequenas encomendas enquanto trabalhava fora, mas eu tinha pouquíssimo tempo. Comecei lançando a caixa de cookies para serem decorada pelo cliente. Na época ninguém estava fazendo, e só na primeira semana vendi mais de vinte. Depois lancei a party box, já que as pessoas estavam com receio de festejar com os amigos; fiz opções pequenas, conquistando assim vários clientes e pedidos. Foram dez boxes só na primeira semana. A partir daí fui sendo conhecida. A rede de TV local do Channel 2 Action News e a 11Alive me convidaram para entrevistas sobre o meu trabalho, e assim os pedidos deslancharam de vez e o business está indo muito bem.


CIA BRASIL: Fale um pouco sobre como surgiu a Carola’s Kitchen.

CAROLINA: Desde o Brasil eu tinha meu Instagram chamado Carola’s Kitchen. Minha avó materna me chamava de Carola, por isso o nome. Eu postava meus cupcakes e bolos, mas nessa época ninguém conhecia muito o Instagram, e o Carola’s Kitchen virou o meu hobby. Quando vim para cá, postava as coisas que eu fazia na escola. Quando decidi abrir meu business, fiz a papelada e decidi mudar o nome. Eu já tinha arte com o novo nome e tudo mais, mas não consegui me desfazer do meu Carola’s Kitchen e refiz tudo, comprei novo domínio pro meu site, refiz cartões, etiquetas etc. Assim renasceu o nome do Carola’s Kitchen que, na verdade, sempre esteve no meu coração. manter.


CIA BRASIL: O que você oferece em sua empresa de pastry e o que você considera ser as suas melhores características como chef?

CAROLINA: Eu faço de tudo um pouco. Costumo falar para os meus clientes que se não tem algo na minha lista que eles queiram, me consultem que provavelmente eu também o faça. Mas hoje eu me concentro nos meus bolos e quero poder fazer mais e mais bolos de casamentos.

Como característica de chef, eu gosto de ensinar as pessoas, bem como de criar oportunidades de trabalho. Onde vejo uma frestinha que posso gerar emprego para mais pessoas, tenha certeza de que vou fazer.



CIA BRASIL: Você acha que as oportunidades no mundo da gastronomia para uma carreira de sucesso nos Estados Unidos, especialmente aqui na Geórgia, dependem da escolaridade ou o que conta mais é a experiência?

CAROLINA: Na verdade, quando me consultam sobre fazer ou não esse curso, eu indico a pessoa a primeiro trabalhar na área. O investimento no curso é muito alto e o retorno lento. Precisa-se, claro, ter uma certa vocação. É uma profissão que exige muito de você. Não há finais de semana, feriados, aniversário etc., você vai trabalhar enquanto todo mundo está se divertindo. Então, há que amar o que se faz. O sucesso vem da experiência, “hands-on”. Claro que, se quiser certificações e diplomas, estudar é necessário, mas essas também só vêm se você tem experiência; do contrário, não há livro que nos “ensine” sabor.


CIA BRASIL: Com a chegada do Thanksgiving, como estão os seus planos para oferecer o seu trabalho para a estação festiva de fim de ano? E nos conte sobre a sua campanha de presentear alguém com uma sobremesa para o Thanksgiving.

CAROLINA: Tenho produtos para festas pequenas e grandes. A agenda de novembro está praticamente fechada e ainda está aberta para dezembro. Estou com produtos bastante inovadores para nossa comunidade, como o panetone de churros e os pendentes de árvore de Natal, recheado de brigadeiros. Além de outras delícias como crème brulée.

Sobre a campanha, eu quis fazer um “pay it forward”, que nada mais é do que abençoar outra pessoa como fui abençoada. Com o nascimento do terceiro filho, meu marido e eu nos vimos sozinhos e sem muita ajuda para cuidar de tudo, afinal, minha mãe não conseguiu vir. Uma amiga teve uma ideia do “meal train”, em que você divide uma agenda com quem quiser ajudar e cada um escolhe uma data para levar comida à pessoa que está precisando de ajuda. Eu recebi muito carinho, muitas comidas gostosas, doordash, gift cards etc., e ajuda também com nossas meninas, pessoas que as levaram para passear, se distraírem. Mas como não posso presentear todo mundo, decidi fazer um sorteio no qual, ao invés de você se cadastrar, você cadastra um amigo e diz por que ele merece um bolo/sobremesa. Todos têm uma linda história de alguém que fez algo belo por e/ou para você.


CIA BRASIL: Carol, quais são os seus planos para a sua vida profissional em 2021 e que conselho você deixaria para aqueles que têm o sonho de ter o próprio negócio na América, seja esse business qual for?

CAROLINA: Como planos, quero expandir os negócios com uma plataforma de e-commerce. O site já está em desenvolvimento e logo vêm novidades, principalmente para toda a comunidade brasileira nos Estados Unidos.

Para se ter o próprio negócio, há que fazer acontecer. Tire do papel, pois este país dá oportunidade a todos, basta saber trabalhar direito e seguir as regras. Aqui não tem “jeitinho”. É força de vontade e “mãos à massa”. Não desista de seu sonho, trabalhe e será reconhecido.



CIA BRASIL: Deixe uma mensagem para a comunidade brasileira com sua mensagem de gratidão neste Thanksgiving.

CAROLINA: Em tempos de pandemia, eleições difíceis, briga racial, precisamos nos amar mais. Amar o próximo, estender a mão ao vizinho, dizer uma palavra de incentivo e apoiarmos uns aos outros. Que possamos ser felizes com aquilo que temos e não infelizes por aquilo que não temos. Eu sou muito grata pela minha vida e por tudo que me aconteceu (e que fiz acontecer) até aqui.

Meu agradecimento master vai para a minha mãe, que mesmo a distância nos acompanha e sinto o seu coração junto ao nosso todos os dias. Agradeço ao meu marido, meu parceiro, que exerce o papel de pai e marido como se fosse a coisa mais fácil do mundo, e quem me apoia 100% em todas as minhas decisões, além de ser o abridor oficial de forminhas de brigadeiro (risos). Sou grata a minha amiga Karen Scheneider, que me ajuda com as crianças, sempre cuidando com muito carinho e mimos. À Malu Ribas, que criou o Meal Train quando tive meu bebê caçula no mês passado, e incentivou as pessoas a trazerem comidinhas aqui para a gente. Aos meus clientes que entenderam a minha indisponibilidade durante o mês de outubro, na ocasião do meu resguardo, e o apoio ao meu retorno. Agradeço à Cia Brasil Magazine por ter me incluído nesta homenagem e poder compartilhar a minha história com todos os leitores.



Da Redação
FOTOS POR MANOEL OLIVEIRA
GLOBO PHOTO & VIDEO PRODUCTIONS

Last Updated on Tuesday, 17 November 2020 17:56
 

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