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Diário de Pandemia | 20 DE NOVEMBRO: DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. Resistência e sobrevivência do povo negro brasileiro


Debater questões raciais move o senso comum ou pseudos intelectuais no argumento de que a escravidão já passou e que o Brasil não é racista; que cotas raciais são um racismo reverso; que não existe privilégio branco e que tudo depende da meritocracia, pois todos somos iguais; que a consciência humana é mais importante que a consciência negra; e outras falas mais.

O Brasil foi o último país a abolir a escravidão nas Américas, traficando 46% das pessoas escravizadas em todo o continente. Esse é o motivo de o Brasil ser o país mais negro depois da Nigéria, tendo 52% de sua população constituído por negros. Silenciar toda essa população é um massacre a um país rico, diverso e com números violentos de desigualdade racial e justiça social.

A Identidade Nacional do Brasil, criada no século XIX, foi uma maré montante da escravidão, segundo contam Julio Velozzo e Silvio de Almeida. Todos os segmentos brasileiros no império, sendo ricos, médio ou não-ricos, eram proprietários de pessoas, e interessados em manter a escravidão. O pensamento social brasileiro tem heranças nessa realidade, uma mentalidade em que o sonho do oprimido é querer ser seu opressor, por meio de empregados domésticas, criados, motoristas.

Os movimentos de resistência sempre foram presentes desde a chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil. A pressão econômica internacional já vinha desde 1845 exigindo que o país acabasse com a escravidão. No entanto, o que levou ao fim dessa atrocidade foram as lutas urbanas abolicionistas que pressionaram Princesa Isabel a assinar a Lei Áurea.

Recentemente passou-se a observar o dia 20 de novembro, que foi resultado da incansável luta do Movimento da Frente Negra Brasileira. A data foi incluída no calendário escolar nacional em 2003 e em 2011, a Lei 12.519 decretou oficialmente a data como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

O famoso Zumbi de Palmares, um símbolo de Luta, resistência e celebração para o povo negro homenageado nesta data comemorativa, foi reconhecido como símbolo. O dia foi escolhido por ter sido a data de sua morte, em 20 de novembro de 1625. Outra personagem dessa luta é a vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018 e reconhecida internacionalmente como símbolo de luta, representando o povo brasileiro no mundo pela luta contra a discriminação e liberdade.



A abolição da escravatura foi feita sem plano de transição e trouxe marginalidade, miséria, nascimento de favelas, desemprego e falta de oportunidades. Com o fim do trabalho escravo, a reparação para donos de escravos aconteceu enquanto o governo dava assistência à imigração branca com cotas com terras, casas, empréstimos aos imigrantes assalariados. Após a abolição, o Estado brasileiro negou a sua origem e tentou civilizar o Brasil com os brancos europeus.

Carregamos em nós uma série de “malungagem” sendo negros de pele escura ou pardos ou mesmos brancos. Esse termo deriva de “malunga”, uma palavra de origem angolana que no Brasil foi utilizada pelos nossos ancestrais escravizados para relacionar aqueles que chegaram ao país no mesmo barco, no mesmo dia, no mesmo navio, e que seguem, por gerações, reatualizando as tecnologias ancestrais de vida e sobrevivência. A malungagem começava no mar e continuou até o dia em que os ex escravos não tinham uma opção e acabavam voltando para a casa do escravista. Os brasileiros são constituídos com esse tipo de sociabilidade configurada nas travessias do navio negreiro. O tráfico negreiro foi um encontro de violências, de resistências e de ideias que colocaram essas pessoas em lugares de renascimento.

Em minha “reconstrução de identidade racial” pessoal, abracei a ancestralidade. Isso me fortaleceu com a conexão que fiz com a brasileira Kiusam de Oliveira, citada na matéria da edição de outubro da Cia Brasil Magazine. Algumas pessoas negras passam pelos mesmos processos em diferentes formas – pelas artes, pela estética, pelo ativismo ou pelo racismo. Das narrativas eurocentradas opressoras para narrativas ancestrais e inspiradoras.

Por outro lado, outras pessoas que ainda estão anestesiadas e massacradas pelos ecos da escravidão e do racismo estrutural continuam negando sua “negritude”. Sueli Carneiro, uma das mais importantes líderes do movimento negro no Brasil diz que “a minha humanidade é inegociável frente à barbárie da escravidão.”

Descobrir ser negro no Brasil está infelizmente ligado a situações de racismo. Os ecos da escravidão precisam ser entendidos historicamente para não serem banalizados e entendidos como vitimismo ou “mimimi”. Os ecos da escravidão estão retratando um país que se beneficiou desse sistema, desumanizando sujeitos, usando políticas na definição de quem morre e de quem vive, despindo esses sujeitos de seus direitos básicos e usando o racismo como tecnologia de exclusão e opressão.

A sociedade brasileira precisa desconstruir essas narrativas de opressão e construir novos horizontes de possibilidades, de igualdade, de prosperidade, de relações mais justas e principalmente de coletividade transformando a potencialidade negra em algo valioso como o ouro, pois a nossa riqueza não está somente nas relações, mas também nas relações de ódio e ignorância.

20 de novembro é um dia de celebrar a morte de Zumbi de Palmares, mas para não nos esquecermos de nos entender como nação escravista e racista e o papel de toda a sociedade na transformação de um mundo mais livre, igual e justo.

Juntos somos mais fortes! O trabalho é diário na construção de oportunidades para a população negra e todos os brasileiros podem se educar e colaborar na construção da consciência negra e consciência humana.



Por Terezinha Ribeiro
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