Home Capa
Capa | TATI LUCAS: Idealizadora do grupo "Gringa Girls" conta sua jornada na luta contra o câncer de mama
Thursday, 18 March 2021 00:00


Março é o mês de celebrar a mulher! O Dia Internacional da Mulher surgiu pela primeira vez em 19 de março de 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, e desde então o dia tem vindo a ser comemorado em vários países do mundo, de forma a reconhecer a importância e contribuição da mulher na sociedade.

Aproveitando as celebrações do mês da mulher, a Cia Brasil Magazine convidou a brasileira Tati Lucas, idealizadora do grupo nacional “Gringa Girls”, criado na virada do ano de 2016 para 2017, pensando em uma comunidade com o cultivo de amizades virtuais e papo positivo para mulheres brasileiras residentes nos Estados Unidos. Sabendo que a vida on-line pode sugar nossas energias ou até mesmo nos impactar negativamente, principalmente durante a pandemia do COVID-19, “o grupo Gringa Girls quer fazer diferente, e gerar oportunidades que nos inspirem, nos animem e nos ajudem a crescer juntas! Afinal, viver longe de nossas raízes pode ser difícil e até mesmo solitário”, ressalta Tati. O grupo encoraja seus membros a escrever textos, dar ideias e até ser a melhor amiga de alguém.

Tati Lucas é natural de Curitiba, filha de pais muito presentes, e tem dois irmãos e uma irmã. Ela é casada e tem dois filhos. Após se casar, veio morar nos Estados Unidos, onde se reuniu com avós, sogra, tio e alguns primos. Recentemente, Tati foi diagnosticada com câncer de mama e ainda está em tratamento. Além do grupo do Gringa Girls, Tati começou a se envolver com a causa de conscientização e apoio a pessoas com câncer, e criou dentro do Gringa Girls um grupo de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica. Confira o nosso bate-papo com Tati Lucas.


CIA BRASIL MAGAZINE: TATI, HÁ QUANTO TEMPO VOCÊ MORA AQUI NOS ESTADOS UNIDOS? CONTE-NOS SOBRE SUA VINDA E POR QUE DECIDIU VIR PARA A AMÉRICA?

Tati - Em 1996 eu fiz um intercâmbio para Cincinnati, Ohio, onde aprendi a língua e a cultura americana. Foi nessa época que conheci o meu “high school sweet heart” Perry Lucas. Ele sempre foi muito envolvido com outras culturas e adorava soccer e estrangeiros. Quando terminou o meu intercâmbio, eu voltei para o Brasil e para a minha surpresa meu namorado decidiu mudar para o Brasil e começar a faculdade lá. Com o passar do tempo, houve uma greve na Universidade Federal do Paraná e ele decidiu voltar para os Estados Unidos, mas antes me pediu em casamento. Nos casamos e, apesar de estar super feliz, foi uma decisão muito difícil, pois gostava muito do Brasil e de estar perto de minha família. Meu esposo me prometeu que voltaríamos para o Brasil após o término de sua faculdade. Nos casamos no Brasil e estamos juntos há 21 anos.


CIA BRASIL MAGAZINE – E SEUS FILHOS? ELES NASCERAM NO BRASIL OU AQUI NOS ESTADOS UNIDOS?

Tati - Minha filha nasceu em Cincinnati. Éramos bem jovens, minha mãe veio nos dar suporte e ficou com por alguns meses. Após Perry terminar a faculdade, voltamos de mudança para o Brasil, em tempo de celebrar o primeiro ano da minha filha. Ficamos no Brasil por alguns anos. Comecei faculdade de Jornalismo e depois trabalhei na emissora CNT como produtora e jornalista. Mas após um aborto espontâneo, comecei a reavaliar a minha vida e o meu futuro. Achamos que viver nos Estados Unidos nos traria mais oportunidades e segurança. Em 2005 voltamos para Cincinnati.


CIA BRASIL MAGAZINE - FALE UM POUCO SOBRE A SUA VOLTA À AMÉRICA.

Tati - Ao voltar aos Estados Unidos, estava decidida a engravidar novamente e ser dona de casa. Engravidei rapidinho, compramos nossa casa e fui ser “mamma bear”. Logo veio Thomas, um presente de Deus. Eu sempre gostei da segurança e do ambiente daqui, apesar de sentir muitas saudades do Brasil, não necessariamente do país, mas das pessoas, do calor humano e do jeitinho brasileiro de ser feliz, mesmo sem ter o que comer às vezes. Nos primeiros seis anos de América eu não me sentia tão incomodada com o clima, mas depois o céu cinza e meses de neve começaram a ficar difíceis, e então insisti para mudarmos para o sul, e escolhemos a Geórgia.


CIA BRASIL MAGAZINE - ONDE VOCÊ MORA AQUI EM ATLANTA? O QUE VOCÊ MAIS GOSTA NO ESTADO DA GEÓRGIA?

Tati – Desde que mudamos para a Geórgia, vivo em John’s Creek. Adoro como temos esses lagos lindos, todo esse verde na cidade. Também gosto de estarmos perto das montanhas e da praia, tudo com uma distância razoável.


CIA BRASIL MAGAZINE - O QUE VOCÊ FAZ PARA BALANCEAR A SUA VIDA PROFISSIONAL E PESSOAL? VOCÊ TEM ALGUM HOBBY?

Tati - Fiquei em casa por muito tempo, mas sempre querendo voltar ao mercado de trabalho. Não terminei a faculdade de Jornalismo, pois voltamos para os Estados Unidos depois de dois anos cursados. Então, nestes 15 anos, minha prioridade foi a minha família, mas sempre inventando moda: abri quiosque de joias e pedras brasileiras no shopping, trabalhei como fotógrafa, fiz curso de vídeo, fiz uma web show chamado “Cincy Now”, gerenciei lojas, fui professora e agora, desde 2016, estou desenvolvendo o grupo Gringas Girls.


O CÂNCER


CIA BRASIL MAGAZINE - QUANDO VOCÊ DESCOBRIU QUE ESTAVA DOENTE? QUAIS FORAM OS SEUS SINTOMAS E QUAIS OS MÉDICOS VOCÊ PROCUROU PARA OBTER O SEU DIAGNÓSTICO?

Tati – No verão de 2019, depois de sentir um nódulo no seio, fui diagnosticada com câncer de mama. Hoje reconheço a importância de fazermos o teste do toque em casa. A jornada de quimioterapia, radiação, mastectomia dupla e quimio de novo tem sido difícil. Mas tive muito suporte. O câncer transformou enfermeiras em anjos, amigos em família e família “a prova de balas”. Foi muito difícil mesmo para a minha família acompanhar tudo de perto, mas foi ela que me ajudou a lutar dia a dia. Eu emagreci muito e todos os efeitos colaterais possíveis eu tive. Inclusive com uma internação de cinco dias.


CIA BRASIL MAGAZINE – QUAL O TIPO DE CÂNCER DE MAMA QUE VOCÊ FOI DIAGNOSTICADA?

Tati - O meu câncer é triplo positivo, causado por hormônios, o que me fez entrar em uma menopausa precoce e tomar remédios para bloquear hormônios por dez anos. A minha última sessão de quimioterapia foi no último 30 de dezembro. Ainda estou me recuperando e lutando para manter o meu emocional saudável e o meu corpo curando. Mas hoje, graças a Deus, estou sem sinais de câncer.


CIA BRASIL MAGAZINE - VOCÊ SE CONECTOU COM OUTRAS PESSOAS, PARTICIPOU DE ALGUM GRUPO DE APOIO OU PARA CONSCIENTIZAÇÃO E PREVENÇÃO AO CÂNCER?

Tati – Sim, me conectei com pessoas que tiveram ou têm câncer. Não participei de grupos, pois no começo estava muito frágil e depois veio a pandemia do COVID-19 que me deixou apreensiva. Eu acho muito importante o apoio da comunidade e sinto falta disso. Apesar da pandemia, participei em Atlanta com o meu testemunho de “cancer survivor” no evento do Outubro Rosa, realizado pela Wanessa Moore em Atlanta, e com o apoio da GAMU (Grupo de Apoio à Mulher) e a Cia Brasil Magazine. Espero poder dar e receber mais apoio das minhas “pink sisters” assim que eu tiver condições físicas.


A PANDEMIA DO COVID-19


CIA BRASIL MAGAZINE - QUAIS AS PRECAUÇÕES VOCÊ PRECISOU TOMAR E COMO VOCÊ PRECISOU SE ADAPTAR POR CAUSA DA PANDEMIA? TEVE ALGUM IMPACTO NO SEU TRATAMENTO?

Tati – Eu sempre digo que os impactos do COVID, como o lockdown e o distanciamento social, vieram para mim antes de todo mundo, pois o câncer já tinha mudado alguns hábitos meus. Já não estava saindo e não estava vendo muitas pessoas. Então estou de quarentena muito antes de tudo isso. De certa forma, vejo coisas similares entre o câncer e a pandemia do COVID-19. Ambos geraram em mim medo do desconhecido e o isolamento. Fiz toda minha radiação e segunda quimio com a pandemia acontecendo. Os meus cuidados, os da clínica e os das pessoas ao meu redor dobraram.


CIA BRASIL MAGAZINE - COMO VOCÊ CONSEGUIU MANTER SUA SAÚDE EMOCIONAL DURANTE A PANDEMIA?

Tati - Alguns dias não consegui ficar bem, algumas manhãs não me levantei da cama. As crianças ficam afetadas de ficarem em casa tanto tempo. Mas aprendi a aceitar que existem dias difíceis e dias mais fáceis. Tento viver um dia de cada vez e lembrar o quanto somos abençoados e temos mais do que agradecer do que reclamar. Falar com Deus me sustenta muito pois a esperança é Ele quem me dá. Dias melhores virão.

Também fiz terapia pela clínica que me acompanha no câncer. Em agosto de 2020 deixei minha filha mudar para faculdade em vez de fazer aulas só on-line, para que ela pudesse ter um pouco mais de normalidade na vida, o que ajudou bastante. Meu filho ainda está fazendo aula de casa. Meu marido, que é consultor e trabalha com IT, está trabalhando de casa. Mas sinto que a vida está se adaptando e estamos cada vez melhor. Aprendemos muito uns sobre os outros. Evoluímos muito com tudo isso.


CIA BRASIL MAGAZINE - VOCÊ TEM ALGUM ALERTA À OUTRAS PESSOAS SOBRE A PREVENÇÃO E DETECÇÃO DO CÂNCER?

Tati – Sim, realizar o toque frequente em casa é muito importante. A detecção precoce é o maior aliado do paciente. O quanto antes for detectado, mais chances de sobrevivência. Estou em dia com meus checkups e atenta ao meu corpo. Pensava que aos 40 eu seria super ativa e nunca ficaria doente. Nunca gostei de ir ao médico ou até mesmo tomar remédios. Hoje penso só em prevenção, prevenção, prevenção.


O GRINGA GIRLS


CIA BRASIL MAGAZINE - COMO E QUANDO SURGIU A IDEIA DO GRINGA GIRLS?

Tati - Quando me mudei para Atlanta, não conhecia a cidade e sempre ia no Facebook para fazer perguntas. Dentre homens e mulheres, conheci só uma pessoa que confiei para conversar. Senti falta de achar um grupo só de mulheres em que eu me sentisse mais à vontade e segura. Foi assim que surgiu a ideia, somado a pessoas que acabei conhecendo depois que mudei para Atlanta, e que me deram um suporte maravilhoso quando falei da minha ideia.


CIA BRASIL MAGAZINE - QUEM PODE PARTICIPAR DO GRINGA GIRLS?

Tati - O Gringa Girls é específico para brasileiras que morem fora do Brasil. Pensei como seria ótimo se tivesse um grupo só de mulheres para dicas aqui nos Estados Unidos, e que também oferecesse suporte às pessoas que acabaram de chegar à cidade ou se sentem sozinhas. O grupo cresceu de forma incrível, começamos a nos encontrar pessoalmente para cafés e depois outras cidades também queriam ter os encontros. Hoje está se transformando em uma verdadeira família no exterior. Já estamos com mais de 11 mil gringas. O grupo é nacional e já conta com muitos voluntários. Tenho planos de, após a pandemia, fazer um congresso Gringas e ter um “girls weekend out” em Las Vegas. Tudo será publicado no grupo e no nosso site www.gringagirls.com.


CIA BRASIL MAGAZINE - FALE SOBRE O PROJETO QUE ENVOLVE “AWARENESS” E SUPORTE ÀS MULHERES BRASILEIRAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA DENTRO DO GRINGAS.

Tati - Temos alguns grupos de afinidades sendo formados (vinho, viagens, negócios, leitura, imobiliária...), mas houve uma grande procura por um grupo que falasse exclusivamente sobre violência doméstica, principalmente durante a pandemia do COVID-19, período no qual a violência tem aumentado muito. Por enquanto, o grupo está aberto para conversa entre gringas que já passaram por isso e as que estão passando. Tentamos reencaminhar para ajuda quando conseguimos, mas estamos trabalhando para desenvolver, no site, telefones de ajuda, protocolos e parcerias. Queremos poder dar um suporte mais concreto no futuro.


PLANOS PARA O FUTURO


CIA BRASIL MAGAZINE - FALE SOBRE O QUE VOCÊ HAVIA PREPARADO PARA SEUS PLANOS PESSOAIS E PROFISSIONAIS DESDE 2020 E O QUE VOCÊ CONSEGUIU REALIZAR ATÉ O PRESENTE MOMENTO.

Tati - Depois de dois anos de molho, ainda me sinto um pouco debilitada. Mas estou muito feliz e empolgada com o futuro, tanto pessoal com profissional. Pessoalmente, sinto que fiz um upgrade com minha família, comigo mesma, com a vida, com Deus. Ainda estou buscando algumas respostas, mas sei que sempre estamos evoluindo. Gostaria muito de escrever um livro e fazer algo com propósito de ajudar mulheres brasileira no exterior a se unirem mais. O Gringa Girls é a ferramenta que faltava. Quanta gente fantástica tenho conhecido através do grupo! E quantos projetos tenho sentido vontade de começar com elas!


CIA BRASIL MAGAZINE - DEIXE UMA MENSAGEM PESSOAL PARA A COMUNIDADE BRASILEIRA, AGRADECIMENTOS A PESSOAS QUE LHE APOIAM OU APOIARAM DE ALGUMA FORMA DURANTE A SUA JORNADA NOS ESTADOS UNIDOS.

Tati - São tantas pessoas que me ajudaram nessa jornada que não quero dar nomes, elas sabem quem são e estarão sempre no meu coração. Amigas que me viram desmaiar, me levaram ao hospital, dormiram no lá comigo, limparam minha casa, me levaram refeições, oraram sobre mim, mandaram mensagem de esperança, vieram de longe para me cuidar... Mas agradeço em especial ao meu marido que me amou na saúde e na falta dela. Agradeço a presença de meus filhos. Agradeço meus pais, que foram e são campeões, sempre me estimularam a nunca desistir e cuidaram de mim com tanto amor; sinto-me privilegiada de chamá-los de pais. Agradeço a minha irmã, que chorou mais que eu e era a única que conseguia me fazer comer; ela foi um anjo em minha vida. Agradeço à Cia Brasil Magazine pela oportunidade de contar a minha história e falar sobre o meu projeto do Gringa Girls.

Deixo minha homenagem a todas as mulheres, sempre fortes, que amam e lutam por suas famílias, suas vidas. Mulheres nutrem a humanidade com seu amor, dão o toque gentil na dor. Mulheres que se unem para crescer, focando em arrumar o erro em vez de apontá-lo. Vamos ser luz sempre, pois a vida precisa da leveza e ao mesmo tempo a coragem que só nós podemos oferecer.

Feliz Dia das Mulheres!




Da Redação
Fotos por Vera Schaich

Last Updated on Thursday, 18 March 2021 18:04
 
« StartPrev12345678910NextEnd »

Page 2 of 15

Translate

Portuguese English Spanish