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Crônica | O divórcio de Deolinda (Parte 2)
Monday, 21 May 2012 00:00

 

Palmira Chagas

 

Deolinda estava presa. Nem ela sabia direito como tudo começara. O problema é que estava ali, presa, sem poder se defender. O único que sabia que ela estava presa era o ex-marido. Ali estava ele, pagando sua fiança, solícito como sempre.

Na sexta-feira anterior, ela resolvera viajar para Flórida. Tentou avisar o ex, mas este, como sempre, não atendeu sua chamada. Deixou, então, um recado explicando que não poderia ficar com as crianças no fim de semana e foi embora feliz e contente com os seus amigos. O ex-marido levou as crianças até à casa de Deolinda, deixou-as na porta e foi embora, sem esperar que as mesmas entrassem na casa. Acostumado que estava de deixar os filhos e ir, saiu apressadamente. As crianças subiram as escadas correndo, sem nem se despedirem do pai. Bateram à porta, tocaram a campainha e nada. Depois de muito tempo, o mais velho chegou à conclusão de que Deolinda não estava. Aí foi uma decepção geral. Pior que não possuíam celular. Bateram no apartamento vizinho pedindo ajuda. O vizinho concordou que ligassem para o pai e para Deolinda. Ambos estavam com o telefone desligado. Deolinda porque nem queria saber o que o marido pensaria quando ouvisse a mensagem; o marido porque não queria ser incomodado no final de semana.

A polícia foi chamada. As cinco crianças foram para o posto policial. O pai foi localizado depois de muito sacrifício, pois estava pescando num lago e bebendo com os amigos. Colocou a culpa em Deolinda. Mostrou o acordo. Saiu ileso, apenas com a recomendação de ver se realmente a mulher estaria em casa no dia que “entregasse” os meninos. As crianças estavam com fome e chorando. Todos queriam Deolinda e não o pai. Não queriam voltar para a casa bagunçada, sem comida gostosa.

Domingo à noite, quando Deolinda chegou do passeio, a viatura foi buscá-la e foi enquadrada em um monte de coisas. Mas, as piores acusações eram as de maus tratos aos menores. Na segunda e terça ficou presa, saiu porque disse ao ex-marido a senha do banco e pagou sua própria fiança.

Voltou para casa arrasada. Como iria se livrar desse problema? Apesar de todos os problemas que tinha tido na vida, nunca poderia imaginar uma coisa assim lhe acontecendo. Tinha que conseguir sair dessa. O maior problema era, na verdade, as crianças, que realmente gostavam dela. Ela tinha bem vivas na memória todas as vezes que as crianças traziam lembrancinhas feitas na escola, principalmente os menores, que até a chamavam de mãe. Apesar do incômodo dos finais de semana com as crianças, pela raiva que sentia do pai explorador, a raiva passava logo quando a pequenina a abraçava e perguntava: “Mon, are you sad?”. Ela realmente se sentia meio-mãe daquelas crianças.

Mas o tempo foi passando e não lhe vinha nenhuma ideia de como sair do problema. Foi então que alguém lhe sugeriu contratar um advogado para “tomar” as crianças do ex-marido, ficar com elas todos os dias e exigir uma pensão do pai para elas. Nem bem pensou e já colocou em prática. Ela não era mãe dos meninos? Como mãe, então, lutaria pelas crianças e ganharia! Sim, ela iria se livrar da situação pegando o problema todo para ela. Se tinha que ficar todos os sábados e domingos em casa, iria ficar todos os dias e exigir pensão.

O advogado explicou que teria que ter uma casa maior para que os meninos ficassem cada qual em seu quarto. No mínimo três quartos seriam exigidos. Também deveria comprovar que poderia cuidar deles. E seria um processo longo e difícil, mas que ela tinha chance de ganhar se as crianças a escolhessem.

Deolinda agora, além de cinco filhos, teria que trabalhar mais para poder tê-los só para si. Iria fazer isto porque o que mais queria era poder atrapalhar a vida do marido!

Sentada no escritório do advogado desabafou:

- Difícil coisa é casar-se com americano! A gente corre atrás de uma legalização e eles quase sempre correm atrás de uma solução para seus problemas. Como eu, que sou carioca e sempre fui “experta”, fui me meter numa confusão dessas?



Palmira Chagas
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Last Updated on Monday, 21 May 2012 12:29
 
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