Home Diário de Pandemia
Diário de Pandemia | NEGRO, PRETO OU AFRO?


Negro, preto ou afro? Na dúvida, chame pelo nome sem especificar etnia. Nos EUA, afrodescendentes são reconhecidos pelo genótipo. Ter uma gota de sangue negro significa ser negro. Não importa a cor da pele ou a cor do olho. Você é negro. A Lei de Segregação Racial de Jim Crow fundamenta esse conceito. As relações raciais entre negros e brancos eram proibidas por lei. Tudo era separado, até Martin Luther King lutar pelo amor cristão para todos e contra o racismo pela não-violência. Ele morreu assassinado e conquistou os direitos civis para os negros dos EUA, e assim ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

Afrodescendentes no Brasil são reconhecidos pelo fenótipo (a “marca”). Ter a pele escura significa ser negro. Atualmente as pessoas já se declaram “negras” mesmo tendo a pele clara (62% da população brasileira). A miscigenação e o conceito de que homem branco é superior foram duas formas de “embranquecer” o Brasil.

O mito da democracia racial é visível no Brasil quando nenhum brasileiro com uma gota de sangue negro não quer ou ainda não se sente confortável em se declarar como negro. O Brasil ainda trata o negro como raça inferior, ou ainda trata como o fez com os africanos escravizados, comparando-os a animais, quando joga banana num estádio de futebol para jogadores negros, por exemplo.

As terminologias estão sempre sendo ressignificadas pelo Movimento Negro, pela música e pela cultura, haja visto que a linguagem é viva e orgânica, e tem suas fundamentações políticas e sociológicas.

NEGRO é uma palavra que ficou reafirmada pelo Movimento Negro brasileiro em contraposição aos outros termos como moreno, moreninho ou mulato advindos da miscigenação e do projeto de invisibilidade do negro. Então afirmar NEGRO passou a ser uma posição definida em nos aceitar como negros. Já nos EUA, a conotação ofensiva “nigger” é vista como racista e depreciativa, enquanto o Brasil até usa a palavra em situações de empoderamento.

Alguns african americans já me disseram que isso só pode ser usado entre negros, mas não de brancos para negros. Já a opinião de um amigo meu, Benjamin Moore, é que a intenção das palavras no diálogo é que muda a conotação racista ou não dos termos usados. Gosto desse olhar pois o racismo atravessa nas relações subjetivas e intencionais nos diálogos. Entre outras defesas ou oposições, a palavra NEGRO perpetua a concepção de mestre/escravo. Já PRETA/PRETO vem dos defensores do movimento Black Power como irmãos e irmãs que se emancipam em si mesmos.

O Brasil tem também essas denominações em que muitas pessoas sabem que é carinhoso e depende das intenções do uso do termo. Conscientes ou não, atualmente a reconstrução da identidade negra no Brasil passa por esse processo de irmandade que o termo PRETO/PRETA carrega; ou como aqui nos EUA onde os african american se tratam como família, chamando de sister and fellow, comunidade e irmandade.

Os termos negro e preto nem existiam na África. Assim todos os países africanos estão mais pautados nas suas tribos, províncias ou grupos étnicos definidos por regiões e características étnicas e culturais como yorubas egbo na Nigéria, ou wolof no Senegal, dentre outros.

O termo AFRO também causa controvérsia pela complexidade de entender a conotação e denotação de cada palavra historicamente carregada de diferentes significados. Para muitos pesquisadores, AFRODESCENDENTES é usado para toda a humanidade frente às diásporas nas Américas, não somente para negros. Outros defendem a ideia de que AFRO é mais positivamente usada que NEGRO como descendentes de escravos. De qualquer forma, o termo AFRODESCENDENTE passou a ser oficial na redação da ONU com intuito de agregar e desmistificar concepções segregatícias partindo da tonalização da negritude e do colorismo.

O termo african american é muito usado nos EUA e poderia ser usado por todos os negros que vivem nas Américas partindo da concepção da diáspora e entendendo que temos o orgulho de nos referir como parte da história, da ancestralidade e do legado africano. A comunidade negra precisa entender isso, assim como toda a sociedade do mundo, em respeito ao nosso mundo cheio de diversidades e multiculturalismo.

Somos responsáveis pela coletividade todos os dias nas nossas relações humanas. Na dúvida, chame pelo nome e respeite a comunidade negra que está trabalhando por um recomeço e reconstrução de um legado que foi devastado pela escravidão, mas que tem muito para crescer e florescer como ninguém nunca viu. Assim já estará contribuindo.

Muito obrigada e axé!



Por Terezinha Ribeiro
Facebook: Terezinha Ribeiro
Instagram: @tmjribeiro

 
« StartPrev12345678910NextEnd »

Page 1 of 16

Translate

Portuguese English Spanish