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Diário de Pandemia | DOMÉSTICAS E CLEANERS: Anjo multiuso ou profissional da limpeza bem paga?


Muitas domésticas brasileiras estão associadas ao anjo que faz tudo. Mas qual a relação que mulheres negras têm com a representação desses anjos nas casas de famílias? Temos um dom e uma bondade espiritual de aceitar tudo, fazer tudo e não gerar conflitos, mas se nos rebelarmos, somos chamadas de negras raivosas. As condições de opressão fizeram mulheres negras aceitar ou não ter opção de sair de situações de trabalho escravo sem remuneração e sem perspectiva de fuga.



Na história do Brasil, e ainda hoje, as famílias abastadas trazem meninas do interior para trabalhar em casa de família na cidade grande, como aconteceu com a minha irmã. Meninas adolescentes sem estudo que acabam envelhecendo na casa dessas famílias. Os brasileiros ricos que vêm morar nos Estados Unidos que já conhecem o mercado e o preço de cleaners trazem suas empregadas domésticas do Brasil.

Esse “anjo” se destaca pelas suas diversas qualidades. Mas minha indagação é que as domésticas brasileiras são em sua maioria negras, infelizmente pelo processo colonizador e escravocrata que o Brasil viveu. Então, será que podemos associar a conotação de que a mulher negra que carrega essa dualidade de sentidos e significados, que carrega essa concepção da mulher guerreira, mulher com espírito elevado de servir, da mulher forte, da mulher que não tem outra opção, essa mulher negra que enfrenta as maiores opressões sociais (raça, gênero e classe), com a ideia de anjo? As contradições históricas, econômicas e significados culturais e religiosas insistem em manter na cabeça dos ricos o desejo desse “anjo negro” que faz tudo.

Eu posso contribuir neste artigo, um dos mais difíceis para colocar no papel, a visão da mulher negra que escreve aqui, no meu lugar de fala da vivência dolorida da doméstica brasileira e da vivência mais empreendedora das cleaners nos Estados Unidos. Dois contextos bem diferentes que me remetem a experiências muito difíceis que eu e outras mulheres negras no Brasil vivemos com as de outras latinas, brasileiras universitárias, advogadas, contadoras, administradoras, brancas, que escolhem ser cleaners e desfrutam de uma vida melhor, pois são bem remuneradas como profissionais e não como anjo que faz tudo (limpar, cozinhar, ser babá, cuidar de cachorro, fazer mercado etc.).



Seguem fatos para reflexão do desejo do anjo:

1. Eu cuidei da minha casa e de meu irmão aos 9 anos de idade para minha mãe trabalhar.

2. Com 13 anos, minha mãe me entregou para a patroa com promessa de vida melhor. Eu fui avaliada e testada e não podia comer antes deles (a família da patroa).

3. Aos 14 anos, fui babá do filho de uma colega de classe. Os estudos nos conectavam. Eu gostava desse relacionamento.

4. Aos 15 anos, trabalhei para o meu professor de matemática. Ele me emprestava os livros para eu estudar para o teste do CEFAM (Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério). Eu era aluna dele à noite e ele sabia que nossa relação seria temporária.

5. Para pagar as minhas contas, minha irmã me arrumou outro trabalho de doméstica, pois mesmo formada com as melhores notas, o mercado não me acolheu, pois eu não tinha telefone fixo para a escola me chamar para substituir. E a escola era uma quadra da casa onde eu morava.



6. Trabalhei três meses para uma família descendente de portugueses. Queriam me registrar, mas eu pedi demissão. Eu estava consciente que tinha outras competências.

7. Fui fazer muitas outras coisas, mas de forma instável. Minhas irmãs me arrumaram outro trabalho doméstico em outra cidade. Não consegui dizer não. Não era madura para enfrentar sozinha as decisões aos 18 anos, mas fui. As patroas abriram o quartinho da empregada, pediram para o cachorro sair e disseram para mim: “É aí que você vai dormir.” Revoltei-me com isso. Tinha amigos do magistério que me fizeram acreditar na educação e na transformação das pessoas. Pedi para voltar para casa de minha mãe e fui trabalhar na casa do meu professor de Filosofia. Foi um projeto curto e temporário para eu entrar na universidade. Entrei na UNESP.

Salários justos, direitos respeitados e relações humanizadas são urgentes. Em junho deste ano, por exemplo, Benedita da Silva, mulher negra na política brasileira, conseguiu a aprovação de plano de vacinação contra coronavírus para empregadas domésticas no Brasil.

As sinhás, as filhas de sinhás e netas das sinhás precisam rever suas expectativas baseadas em conceitos de anjo que faz tudo. Eu faço tudo sim! Bibliotecária, cleaner, cantora, escritora, locutora, mas são minhas escolhas e não opressões.

O grande impacto está na mobilidade social, poder de escolha, flexibilidade e ferramentas que os cleaners têm e as domésticas não. O quartinho da empregada e a senzala moderna, como disse Preta Rara, rapper e influencer, no seu livro “Eu, empregada doméstica”.

É preciso respeitar todos as domésticas e cleaners!



Por Terezinha Ribeiro
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Instagram: @tmjribeiro

 
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