Home Diário de Pandemia
Diário de Pandemia | BLACK BROTHER BRASIL 2021: Mobilidade social ou divisão da sociedade?


O reality show Big Brother, criado nos Estados Unidos em 1999 por John do Mol, executivo de TV e sócio da empresa Endemol, teve a ideia de reunir pessoas selecionadas, comuns ou famosas, para conviverem numa casa, sendo vigiadas por câmeras 24 horas por dia. O nome do programa foi inspirado no nome de um personagem do livro publicado por George Orwell.

George Orwell nasceu na Índia e estudou na Inglaterra. Viveu contextos de guerra, polarização e regimes totalitários. Em 1949, ele publicou a novela fictícia intitulada “Mil novecentos e oitenta e quatro” (também escrita numericamente: “1984”), e nela está o “Big Brother”, um personagem fictício. Nesse romance, o personagem é ostensivamente o líder da Oceania, um estado totalitário onde o partido governante – Ingsoc – exerce poder total sobre os seus habitantes, “para seu próprio bem”. A distopia de sua obra é um clássico que retrata a sociedade no mundo até os dias de hoje.

Mas o que é uma “distopia”? Pode ser um lugar hipotético com sistemas opressores, autoritários, de privação, perda ou desespero... uma espécie de “anti-utopia”. É uma sociedade futura e hipotética, definida por circunstâncias de vida intoleráveis, que busca analisar de maneira crítica as características da sociedade atual, além de ridicularizar utopias, chamando atenção para seus males. Já utopia é quando imaginamos uma sociedade hipotética que temos nossos direitos garantidos. Na sua opinião, você acha que a casa do reality show Big Brother tem essas características, assim como nossa sociedade?

O livro é uma ficção que retrata uma sociedade vigiada, de forma asfixiante, com câmeras em todos os lugares, assim como vivemos no mundo com gravações por todos os lados, que visa o controle total do indivíduo pelos governos. Na ficção de Orwell, o crime mais grave é ter pensamento livre. No caso dos big brothers da TV, eles são controlados com jogos, atividades, tarefas, decoração da casa, luzes, instruções, tudo para buscar a vitória conquistada com as votações do público que assiste e reproduz, fora da casa, o que está acontecendo dentro da casa mais vigiada nas versões nos Estados Unidos e do Brasil. A obra trata do mundo muito opressivo onde o “grande irmão” (o big brother) está de olho, invadindo a casa.

A pandemia veio mostrar todas as crises que a nossa sociedade está vivendo: social, econômica e de saúde. O reality promove uma mobilidade social, apesar de promover também uma guerra de identidades. A emissora televisiva arrecada milhões a partir de uma audiência, principalmente no dia da eliminação, como ocorreu no de Karol Conká, na edição brasileira deste ano.

A televisão acaba estreitando os pensamentos de uma sociedade que não é educada para a leitura e para a consciência. Ela somente reproduz os mesmos comportamentos que condena. Um exemplo disso é a cultura de cancelamento, comum na atualidade nas redes sociais, excluindo pessoas que cometeram erros relacionados a discriminação, racismo, machismo, xenofobia, homofobia, tudo com linguagens de guerra. A cultura do ódio que vivemos nas redes, nos WhatsApp’s e no nosso cotidiano promove a divisão da sociedade. E isso é o que menos precisamos em situações de crise como a que vivemos.

Esta edição poderia ser uma oportunidade para negros no Big Brother, pois foram vários participantes selecionados. No entanto assistimos a uma situação deliciada com a saída do Lucas Penteado, um exemplo claro da interseccionalidade (raça, gênero, classe e orientação sexual) no mesmo menino negro como forma de opressão. Assim como no livro no qual as sensibilidades são proibidas, a exaltação do amor com o participante Gil, com um beijo avassalador, gerou muitos comentários dentro da casa. O que Lucas propõe como revolução fez com que seus próprios brothers negros se revoltassem contra ele e se tornam seus inimigos. Será que isso não tem ocorrido conosco?

Lamentavelmente os participantes negros já foram excluídos na sua maioria (Lumena, Nego Di, Projota e Karol Conká). Todos podemos errar como humanos, mas a casa está organizada para os participantes terem colapsos. Esse é o jogo! E esses participantes negros cometeram muitos erros, e foram julgados por isso.

A obra “1984: Big Brother” foi publicada atualmente por um ilustrador e quadrinista brasileiro chamado Fido Nesti. Esse lançamento é uma novidade incrível que possibilita a todos ler esta obra na linguagem dos quadrinhos e dá oportunidade para refletir o impacto do reality Big Brother Brasil 2021 (e no mundo inteiro) no contexto da pandemia que agrava as violências enquanto produz riqueza ao mesmo tempo.

O público reproduziu o que já se naturalizou com os participantes negros. A intolerância, sem dúvida nenhuma, comparada com as outras edições, retratam essa brutalidade, com números altos de rejeição com Karol Conká, Nego Di e Projota, além da crise da sensibilidade como a que ocorreu com Camilla de Lucas, que não é bem vista após beber na festa, sendo julgada e avaliada com menções de desrespeito das religiões afro-brasileiras, ou quando João aborda falas cotidianas do racismo na vida dos negros no Brasil com relação às pessoas fazendo comparações de violências e agressões com nossos cabelos, nossos traços e nossa cor.

Entender o Big Brother a partir da narrativa de George Orwell é entender a vulnerabilidade humana em contextos de estresse e pressão. Os danos estruturais adoecem e polarizam a nossa sociedade. Precisamos unir esforços na promoção da democracia, respeito, diálogo e união para a melhoria da sociedade.



Por Terezinha Ribeiro
Facebook: Terezinha Ribeiro
Instagram: @tmjribeiro

 
« StartPrev12345678910NextEnd »

Page 1 of 10

Translate

Portuguese English Spanish