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Diário de Pandemia | O SURTO DAS “LIVES”


Somos seres coletivos e sociáveis, e ainda resistentes ao uso da internet para a resolução de necessidades da vida cotidiana. No entanto, em tempos de quarentena e no pico do isolamento social, a internet e as redes sociais foram o aconchego, a fuga, a diversão e, principalmente, a única alternativa de trabalho para a maioria da sociedade. O ambiente digital se transformou no espaço social mais frequentado em tempos de Covid 19.

Frente a tantas incertezas provocadas pela pandemia do coronavírus, uma das ferramentas das redes sociais passou a ser muito utilizada: as lives.

O surto de lives na quarentena mudou o cotidiano de todas as pessoas, na medida em que estávamos com mais tempo e disponibilidade para assistir, acompanhar e participar como sujeito social da vida pela internet em atividades do cotidiano (reuniões e eventos online, como casamentos, aniversários etc.) por meio de várias ferramentas e aplicativos. Dentre as programações, ocorreram:

  1. Lives de shows de artistas famosos;
  2. Lives jornalísticas com debates e entrevistas
  3. Lives religiosas e de meditação, como alternativas de cura para a nossa dificuldade de enfrentar o próprio eu e nosso relacionamento com familiares;
  4. Lives que impulsionaram a coordenação de marcas, desenhando um novo mercado econômico na internet como as bilionárias lives de Gustavo Lima, Marília Mendonça e Ivete Sangalo, esta que teve até transmissão na TV aberta;
  5. Lives de autores de livros e programas de TV;
  6. Lives de culinária, cursos sobre mídias sociais, e até pornografia;
  7. Lives de influenciadores digitais com os mais diferentes conteúdos, desde sexo, culinária, workout e ativismo social.
  8. E lives em que as pessoas só querem conversar e ter interatividade com outras em tempo real, como novas formas de socializar dores, sabores e até mesmo criar soluções de sobrevivência conversando com anônimos do mundo, ou mesmo iniciando novos relacionamentos.

Particularmente, os autores que se destacaram para mim antes da quarentena se tornaram essenciais neste período. Pude entender o impacto das incertezas na nossa sociedade, na saúde mental e no nosso futuro. Destaco aqui: Jordam Campos; a clínica Art of Healing, com o psicanalista Dr. Carlos Hanzani e a Psicóloga Erica Carretero; Lyanla Vazant, Elias Pereira, Pedro Calabrez, os quais, por meio de terapias, treinamentos, vídeos, sugestões e muitas informações, ofereceram suporte as nossas vulnerabilidades. Se você estiver precisando de ajuda e apoio emocional, vale a pena rever os vídeos desses profissionais.

Vale destacar também os artistas que doaram sua arte e seu talento à comunidade, como Fernanda Noronha e Peu Pereira aqui em Atlanta, com o apoio da Cia Brasil Magazine, e outros artistas no Brasil.

Lamentavelmente, no caso do Brasil, a população negra está associada a esse “GAP” (desproporção) social de vulnerabilidade. E no meio da quarentena, vimos a afrodescendente Thelminha vencendo o Big Brother 2020, por um debate de racismo e feminismo dentro do reality e com pressão das redes sociais em defesa dos finalistas. A internet hoje, pelas redes sociais, impacta drasticamente as pautas de audiência na televisão; não tem mais sentido os grandes meios de comunicação ignorar o que a sociedade vem pensando e debatendo nas redes sociais. Toda a sociedade precisa participar, pois assim teremos um debate e participação mais justa.

As lives afrodescendentes de destaques e que precisam ser conhecidas pela sociedade brasileira são as de: Teresa Cristina, cantora de samba; Djamila Ribeiro, filósofa que está com um dos livros mais vendidos no Brasil, intitulado “Pequeno manual antirracista”; e AD Júnior, que inaugurou a primeira TV de cultura preta e urbana no Brasil.

As lives de Teresa Cristina (@teresacristinaoficial) surgiram como uma lacuna para ajudar as mães a não ficarem depressivas. Cantora respeitada no samba, intérprete de álbuns de Cartola, Teresa abre o coração, fala de histórias do samba e dos compositores. A partir de um tema por noite, um homenageado, um aniversário ou um ritmo musical (principalmente o samba), ela se tornou a rainha das lives, com uma audiência irrefutável todas as noites, com a companhia dos seguidores que criaram o cristiners e cristinders pelo flerte que acontece nas lives enquanto os convidados desconhecidos ou famosos, como Caetano, Joana, Gilberto Gil, Camila e Antônio Pitanga, Jorge Aragão, entre outros, estão batendo papo e cantando durante a exibição. Os seguidores se emocionam e deram suporte à cantora para conseguir sua live patrocinada pela cerveja Original. A live de Teresa definitivamente é necessária para conhecermos como a música e o samba representam a história do Brasil e dos afrodescendentes. Detalhe: ela canta sem instrumentos e sempre tem mais de 2 mil pessoas assistindo diariamente.

AD Junior (@adjunior_real) é mineiro e se mudou aos 12 anos de idade para o exterior para estudar. Falando inglês fluentemente, desenvolveu um canal no Youtube para relatar as suas viagens e acabou sendo um expoente ativista negro com o vídeo “Racismo estrutural e história dos afrodescendentes no mundo”. Estudou Marketing nas Mídia Sociais, criou revistas brasileiras no exterior e ganhou destaque nas empresas que trabalhou. Atualmente morando na Alemanha, ele é o criador da Trace Brasil, a primeira TV de cultura preta e urbana inspirada no ator e diretor Tyler Perry daqui de Atlanta. Ganhou destaque nas lives por explicar vários pontos da história do negro e sobre conteúdo relevantes para entender o racismo estrutural. AD Júnior destaca que falar sobre racismo dói, mas que precisamos disto agora para sabermos quem seremos daqui a 20 anos e para fazer a sociedade entender que terão que comprar máquina de lavar louças quando não existir empregada doméstica. Um detalhe é que ele não grava as suas lives; para assistir você precisa estar conectado ao vivo.

E as lives de Djamila Ribeiro (@djamilaribeiro1) destacam convidados e autores da coleção que ela organizou para a publicação de autores afrodescendentes. Com experiencia internacional e acadêmica, Djamila é uma autora de muitos livros conhecidos como “Lugar de fala feminismo negro”, e agora um dos mais vendidos na atualidade intitulado “Pequeno manual antirracista”, que apresenta em seu texto em como participar da luta e combate ao racismo, principalmente online, com ataques de ódio e arrogância que as lives afrodescendentes têm sofrido. Ela é uma das autoras contemporâneas convidada para lives e entrevistas na internet em diferentes jornais internacionais.



As redes sociais, por meio das lives e outras ferramentas, se transformaram em uma forma de participar deste momento histórico, registrando as memórias, promovendo debates e entretenimento, desenvolvendo novos cenários, conectando pessoas e promovendo oportunidades de aprendizagens. A relevância das redes sociais em tempos de isolamento social precisa ser compreendida como um fenômeno histórico.

E você, como se sente neste processo? Eu me transformei e estou me permitindo viver o possível com auto respeito, calma e paciência. Isso passará, mas nunca seremos os mesmos. Como você lembrará de si mesmo daqui a 20 anos? O que contribuiu para essas mudanças internas e sociais ou só o que ficou isolado?

Juntos somos mais fortes! Juntos na busca de soluções com respeito ao multiculturalismo e à diversidade teremos uma sociedade mais justa e humana.




Por Terezinha Ribeiro
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Instagram: @tmjribeiro

 


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